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Eugénio Onéguin
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Nelson Zagalo's review
bookshelves: literary_canon, literature
Apr 12, 2018
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Existe algo de brilhante neste texto a que não consigo aceder na plenitude. Tendo gostado bastante de ler e sentido por vezes que atingia um certo zénite, não consegui permanecer por lá todo o livro, apesar de o ter procurado já que o desejo por realizar esta leitura era bastante elevado. Pushkin é uma referência da história internacional da literatura, é o Camões, ou talvez melhor, o Dante do russo. Estranhamente no início do século XIX a elite russa usava mais o francês do que o russo, um pouco à semelhança da elite que só escrevia em latim quando Dante ousou escrever em italiano.
Creio que a minha leitura sofreu por três razões pessoais, que espero um dia ultrapassar: o meu desgosto com o romantismo; a minha fraca inclinação para a poesia; e o meu limitado interesse por novelas curtas. Começando pelo último, os textos curtos fazem-me sempre sentir que tudo passa demasiado a correr, sem espaço/tempo para um verdadeiro desabrochar dos personagens. Já a poesia perco-a na forma, por se dedicar mais à sintaxe que à semântica, é um pouco como se a literatura almejasse a ser música, sendo artes dotadas de tão distintas valências. Por fim o romantismo, já muitas vezes me queixei do mesmo, julgo que não adianta apontar os seus problemas, não foi por mero caso que a corrente desapareceu no tempo.
Por outro lado, agora refletindo e comparando com outras obras de contornos épicos, não que este seja um épico declarado mas pode ser encarado como tal pelo que disse acima, considero que fui provavelmente exigente demais. Aqui atribuirei as culpas ao brilhantismo de Pushkin. O modo como escreve é assombrosamente acessível, dotado de um ritmo de tranquilidade que faz tudo parecer tão fácil, quase como se estivesse ali no papel por zelo natural. Pushkin consegue fazer-nos esquecer que estamos a ler em verso, consegue fazer-nos esquecer que continua a obedecer aos parâmetros do romantismo, os quais ele obsessivamente persegue na forma do seu grande ídolo, Byron. Em certa medida, e depois de passar os olhos por algumas peças escritas por Pushkin, fico com a ideia que esta sua abordagem de simplificação, de facilitar o acesso, dar a ver e não esconder, no fundo uma certa fuga ao romantismo, se deve a uma sua outra obsessão, Shakespeare.
Uma obra para reler.
Também publicado no VI:
Creio que a minha leitura sofreu por três razões pessoais, que espero um dia ultrapassar: o meu desgosto com o romantismo; a minha fraca inclinação para a poesia; e o meu limitado interesse por novelas curtas. Começando pelo último, os textos curtos fazem-me sempre sentir que tudo passa demasiado a correr, sem espaço/tempo para um verdadeiro desabrochar dos personagens. Já a poesia perco-a na forma, por se dedicar mais à sintaxe que à semântica, é um pouco como se a literatura almejasse a ser música, sendo artes dotadas de tão distintas valências. Por fim o romantismo, já muitas vezes me queixei do mesmo, julgo que não adianta apontar os seus problemas, não foi por mero caso que a corrente desapareceu no tempo.
Por outro lado, agora refletindo e comparando com outras obras de contornos épicos, não que este seja um épico declarado mas pode ser encarado como tal pelo que disse acima, considero que fui provavelmente exigente demais. Aqui atribuirei as culpas ao brilhantismo de Pushkin. O modo como escreve é assombrosamente acessível, dotado de um ritmo de tranquilidade que faz tudo parecer tão fácil, quase como se estivesse ali no papel por zelo natural. Pushkin consegue fazer-nos esquecer que estamos a ler em verso, consegue fazer-nos esquecer que continua a obedecer aos parâmetros do romantismo, os quais ele obsessivamente persegue na forma do seu grande ídolo, Byron. Em certa medida, e depois de passar os olhos por algumas peças escritas por Pushkin, fico com a ideia que esta sua abordagem de simplificação, de facilitar o acesso, dar a ver e não esconder, no fundo uma certa fuga ao romantismo, se deve a uma sua outra obsessão, Shakespeare.
Uma obra para reler.
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""Embriagai-vos, amigos, entrementes,
com esta vida assim ligeira!
Sei que nada vale e, pessoalmente,
nenhum afecto ela me requeira:
aos fantasmas fechei os olhos e ouvidos;
mas esperanças e desejos furtivos
ainda me inquietam a espaços �
seria triste para mim baixar os braços
e partir sem deixar qualquer veio.""
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com esta vida assim ligeira!
Sei que nada vale e, pessoalmente,
nenhum afecto ela me requeira:
aos fantasmas fechei os olhos e ouvidos;
mas esperanças e desejos furtivos
ainda me inquietam a espaços �
seria triste para mim baixar os braços
e partir sem deixar qualquer veio.""
April 12, 2018
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Obrigado pela explicação Nuno, super interessante, como a Carmo diz nenhum nome russo se escreve sempre da mesma maneira e eu já me tinha interrogado porquê. :)

Sim, em Português recentemente parece ter ficado convencionado o "ch", por outro lado não gosto que lhe adicionem o assento no "ú". Ainda assim, seja inglesa ou portuguesa, são sempre adulterações dos nomes russos, o que me chateia. Os nomes não deviam ser traduzidos, ainda que o alfabeto russo seja distinto, mas devia ocorrer uma conversão única, e não em função de cada língua.
Acabei usando a forma inglesa por ser a mais simples e a mais amplamente reconhecida do seu nome.
Mas reconheço que não o fiz com Tolstoi nem Dostoievski, mas aqui por causa dos "y", embora mais uma vez me chateie que tenham de lhe acrescentar assentos, já para não falar no primeiro nome de Tolstoi, como apontou a Carmo.

What really strikes me is why Russia would use french as the elite mother-tongue. Nabovok would learn first english and french and only then russian. Strange.
For Dante it's easy to see the relevance of oppression developed by Latin. Probably I need to study more history of Russia :)

Porque é que escreves-te o nome do autor como Pushkin e não como Putchkin?