Dada a natureza académica de livro, não seria justo avaliá-lo fora do seu contexto - acho, aliás, uma escolha de marketing deplorável este aproximar dDada a natureza académica de livro, não seria justo avaliá-lo fora do seu contexto - acho, aliás, uma escolha de marketing deplorável este aproximar de título com o anterior livro da autora, Mulheres Viajantes - pelo que me fico por uma opinião muito geral do seu conteúdo, ressalvando que esta leitura acabou por não ser nada do que eu esperava que fosse. E o que era isso? Bom, incauta leitora que sou, joguei-me a um título como Mulheres viajantes no país de Salazar na esperança de, à semelhança do trabalho que a autora faz no livro homónimo, aqui encontrar narrativas sobre mulheres viajantes portuguesas (se calhar mais "do país de Salazar" do que "no país de Salazar", percebi isso entretanto), mulheres como Maria Lamas, Maria Archer, Nita Clímaco, etc., que fogem à regra dos tempos e se revelam viajantes rebeldes com olhares e opiniões sobre Portugal e os portugueses que importa resgatar do esquecimento. Mas, Mulheres viajantes no país de Salazar não é nada disso. Nem por isso menos importante, este livro é, literalmente, uma tese cuja proposta assenta na desmontagem dos lugares comuns que habitam a auto-imagética nacional. Porquê um país à beira-mar plantado? Porquê a defesa de pobrezinho, mas honrado? Porquê o pitoresco das figuras tradicionais? De onde vem a ideia de uma herança marítima, de uma ancestralidade histórica? E, já agora, porque não encaramos o Estado Novo como uma ditadura? De onde vem a imagem de um Salazar poupadinho ou de um aparelho de estado benevolente? Para responder a estas questões, Sónia Serrano recorre a uma mão cheia de obras de autoras (viajantes) que visitaram o país nas décadas 30, 40, 50 do século XX, e que ajudaram a criar e, em alguns casos, sedimentaram uma narrativa sobre Portugal e os portugueses que, em certos aspectos, ainda perdura. Ora, se por um lado o ŷ não é um Google Scholar, por outro lado também não tenho nenhuma vontade de me meter em mais trabalhos do que aqueles que já tenho - pelo que vou dispensar publicar a review deste livro. Fico-me pela advertência de que não se trata de um livro no seguimento do mais conhecido da autora. E, embora tenha imensa relevância no campo dos estudos de género, da literatura de viagem e da história de século XX, trata-se de uma publicação especializada, muito formal e que não foi trabalhada para uma comercialização em massa. Posto isto, que não haja empecilho para a sua leitura. As suas conclusões são de suma importância e o retrato que acaba por ficar destas mulheres viajantes (anglo-saxónicas, de classe média alta), motivará, certamente, muitas reflexões interessantes aos leitores. Em mim, suscitou reflexões e também inúmeras perguntas. Entre elas, uma velha amiga: será relevante retirar as publicações académicas do seu contexto procurando fazer delas leituras mais democráticas (i.e. acessíveis ao público geral), e será que o público consumidor de literatura não académica se sente atraído por este tipo de publicação? Ou ainda, será justo, como aqui acontece, deixar o marketing tomar rédeas e tentar vender gato por lebre - mesmo que o objetivo pudesse ser chamado de nobre, no sentido de levar outro tipo de literatura a um público outro? Habitando nos dois lados do espectro não acho resposta fácil para estas perguntas (afinal, deu para perceber que fui ao engano e acabei relativamente desapontada com uma leitura para a qual, mesmo assim, não acho grandes defeitos). Talvez a ausência de hype nas plataformas de promoção de livros, e a ausência de um registo aqui no GR já depois da data de publicação deste livro, aponte para qualquer conclusão mais óbvia...mas estou curiosa para ver em que se traduz esta edição....more
«Comecei a escrever mais ou menos a sério por volta dos onze anos», disse Capote. «Digo a sério no sentido em que, tal como outros miúdos iam para cas«Comecei a escrever mais ou menos a sério por volta dos onze anos», disse Capote. «Digo a sério no sentido em que, tal como outros miúdos iam para casa praticar no violino ou no piano ou no que quer que fosse, eu costumava voltar para casa todos os dias a seguir às aulas e escrever durante umas três horas. Estava obcecado com isso.»
Publicadas postumamente, As Primeiras Histórias de Capote estão povoadas de paisagens sulistas e personagens familiares ao autor: crianças imaginativas e ignoradas pelos pais, raparigas casadoiras, velhotas deliciosamente malévolas e inadaptados de toda a ordem - de insensíveis criminosos a maltrapilhos com o coração no sítio certo. Atraído por personagens marginais entre as quais se revia (não só dada a sua homossexualidade, mas também enquanto criança exposta a uma situação familiar bastante instável nos primeiros anos de vida), Capote escreve e publica muitas destas histórias na Escola Secundária de Greenwich, ainda em princípios de anos 40, anunciando claramente o escritor que virá a ser. Próximos da história de vida do autor, e bastante consistentes para uma obra de juventude, estes pequenos textos antecipam também a genuinidade, encanto e empatia de A Christmas Memory e One Christmas, duas pequenas obras-primas autobiográficas de um Capote ainda não completamente toldado pelo narcisismo.
A separação ⭐⭐⭐⭐� A loja da azenha ⭐⭐⭐⭐ Hilda ⭐⭐⭐⭐ Miss Belle Rankin ⭐⭐� Se eu te esquecer ⭐⭐� A borboleta na chama ⭐⭐⭐⭐ Terror no pântano ⭐⭐⭐⭐ O estranho familiar ⭐⭐⭐⭐� Louise - Isto é para o Jamie ⭐⭐⭐⭐� Lucy ⭐⭐� Trânsito para oeste ⭐⭐⭐⭐ Espíritos aparentados ⭐⭐� Onde o mundo começa ⭐⭐⭐⭐...more
A Corneta Acústica é, na sua essência, um conto de fadas anarquista e surreal cuja protagonista Marian, uma velhota desdentada, praticamente careca, bA Corneta Acústica é, na sua essência, um conto de fadas anarquista e surreal cuja protagonista Marian, uma velhota desdentada, praticamente careca, barbuda e surda que nem uma porta, no meio de um périplo pela salvação da humanidade, irá fazer todo um percurso iniciático, qual herói de demanda, até aos primórdios do ser e à essência de estar vivo. Eis o mote: Marian partilha o seu lar com dois gatos, uma galinha, a empregada e os seus dois filhos, algumas moscas e um cacto chamado maguey. Mas filho, nora e neto têm planos para acabar com esse idílio:
- O governo providencia instituições para os idosos e os enfermos - vociferou a Muriel. - Há muito tempo que ela devia ter sido internada. - Não estamos em Inglaterra - disse o Galahad. - As instituições aqui não se adequam a seres humanos. - A avó - disse o Robert - dificilmente pode ser considerada um ser humano. É um saco babado de carne em decomposição.
Marian é, pois, recambiada para o asilo Casa da Luz, uma instituição cristã gerida pela Irmandade do Poço da Luz. Felizmente, a sua boa e velha amiga Carmella arranjou-lhe, entretanto, uma bonita corneta acústica com que se entreter nas horas vagas (embora pareça que na Casa da Luz tudo o que vai ouvir são sermões de doutrinação sobre a Obra e o Ensinamento Original do Mestre...). Como seja, o desafio está lançado, e mesmo que Marian se oponha - como compete ao herói -, a sua jornada está em andamento e a aventura pode prosseguir.
- O que devo fazer? perguntei. Acho lamentável suicidar-me quando vivi noventa e dois anos e, na verdade, não compreendi nada.
Uma vez na espartana Casa da Luz, um aglomerado de edifícios de contos de fadas que já viu melhores dias (iglus, botas, cabanas e altas torres de castelo), Marian vai escapando à catequização muito graças à sua surdez, às excêntricas novas amizades mas, sobretudo, porque a sua atenção está toda num retrato que preside às parcas refeições em grupo - o retrato de doña Rosalinda Alvarez Cruz Della Cueva, uma exótica freira com um atrevido piscar de olho. Entretanto, coisas (ainda mais) estranhas estão a acontecer à sua volta: envenenamentos, transvestismo, traficância de substâncias e alterações climáticas são apenas algumas delas. Felizmente, entre rituais manhosos patrocinados pelo guru da casa, visões proféticas e freiras que piscam o olho aos visitantes, também há espaço para inúmeros debates neste refúgio de velhinhas: moda, história, política, religião, a era atómica ou o fim do mundo. Nada está proibido.
- Toda a gente sabe que a Bíblia é completamente inexacta. A sério. Noé partiu, de facto, na Arca, mas embebedou-se e caiu ao mar. A Sr.ª Noé ficou na popa a vê-lo afogar-se; não fez nada acerca do assunto porque ia herdar todo aquele gado. As pessoas da Bíblia eram muito sórdidas e uma grande quantidade de gado era, nesses dias, o equivalente a uma conta bancária.
Marian Leatherby é a figura perfeita para acicatar estes debates e a figura perfeita para, perante um apocalipse, revelar a coragem e o sangue frio da maturidade feminina. Daí que, no passo seguinte, comece o seu percurso iniciático. E Carrington esmera-se aqui. Num rápido descambar, estamos numa nova era glaciar e o convénio de velhinhas da Casa da Luz enfrenta terramotos, fome, aparições cabalísticas e, finalmente, é presenteado com a sua missão: a salvação do Graal e a sua devolução à Grande Deusa - Hécate, símbolo do feminino primordial. As restantes etapas da jornada culminam num crescendo esotérico com uma ressurreição autofágica dentro de uma caverna - a que se chega descendo por uma torre -, e na qual se encontram apenas um espelho de obsidiana que reflete a trindade feminina - menina, mulher, anciã - e um caldeirão (ambos elementos ritualísticos das culturas pré-cristãs), bem como um doppelganger intrigante de Marian:
- Velha como Moisés, feia como Seth, dura como uma bota e tão desprovida de juízo como uma vassoura. Porém, a carne escasseia; por isso, salte cá para dentro. - O quê? - disse eu, esperando ter percebido mal. Ela acenou gravemente com a cabeça e apontou para a sopa com a comprida colher de madeira. - Salte para o caldo, a carne escasseia nesta estação. Com um silêncio horrorizado, vi-a descascar uma cenoura e duas cebolas, que atirou para o caldeirão espumante. Nunca tive quaisquer aspirações a uma morte gloriosa, mas acabar como caldo de carne nunca fizera parte das minhas previsões.
Tudo isto pode parecer estranho - afinal, é Carrington -, mas nada é tão estranho quanto à primeira vista possa parecer. Num final estrambólico, num fim do mundo como o conhecemos onde os lobisomens, as abelhas e as cabras governam sem autoridade humana (a escrita de A Corneta Acústica data do pós-II Guerra Mundial), Marian, uma espécie de projeção presciente de uma velhice irreverente por parte da autora, pode ser lida como uma original com pensamento próprio num mundo normativo; uma rebelde que, mesmo perante a tenacidade da idade, não cede na procura da sua verdadeira identidade e liberdade; ou uma improvável revolucionária anarquista que salvará a humanidade (e os seus símbolos) da sua própria rotundidade e estupidez.
Não consigo compreender como é que milhões e milhões de pessoas obedecem a uma colecção doentia de cavalheiros que chamam a si mesmos «Governo»! A palavra, suponho, assusta as pessoas. É uma forma de hipnose planetária particularmente insalubre.
Tudo isso ou nada disso, a sua aventura de autodescoberta é tão ternurenta, divertida e rocambolesca quanto pragmática. Mais sólido do que isto, só escrito na pedra.
Embora a liberdade nos tenha chegado um pouco tardiamente na vida, não tencionamos voltar a abdicar dela. Muitas de nós passaram as suas vidas com maridos dominadores e rabugentos. Quando finalmente nos livramos deles, vimo-nos pressionadas pelos nossos filhos e filhas, que não só já não gostavam de nós, como nos consideravam um fardo, um motivo de ridículo e de vergonha. Acha mesmo, nos seus sonhos mais delirantes, que, agora que saboreamos a liberdade, nos vamos deixar dominar outra vez?...more
THE DEBUTANT ⭐⭐⭐⭐� O ponto alto desta coletânea é sem dúvida o texto que abre um pequeníssimo conjunto de contos de fadas autobiográficos que têm tantoTHE DEBUTANT ⭐⭐⭐⭐� O ponto alto desta coletânea é sem dúvida o texto que abre um pequeníssimo conjunto de contos de fadas autobiográficos que têm tanto de Leonora que são, por si só, verdadeiras obras-primas. Escrito em 1937/8 (como todos os demais), A debutante é um texto com um título autoexplicativo sobre uma jovem em idade de debutar que se recusa ir ao baile dado em sua honra. A solução: vestir uma hiena do zoo como se fosse ela própria, deixá-la ir ao baile em seu lugar e ficar em casa a ler (claro, até nisso é Leonora até ao tutano). E a coisa até que corre mais ou menos bem:
In my room I brought out the dress I was to wear that evening. It was a little long, and the hyena found it difficult to walk in my high-heeled shoes. I found some gloves to hide her hands, which were too hairy to look like mine. By the time the sun was shining into my room, she was able to make her way around the room several times, walking more or less upright.
Por fim, falta só tratar um último pormenor:
The greatest difficulty was to find a way of disguising the hyena’s face. We spent hours and hours looking for a way, but she always rejected my suggestions. At last she said, “I think I’ve found the answer. Have you got a maid?� “Yes,� I said, puzzled. “There you are then. Ring for your maid, and when she comes in we’ll pounce upon her and tear off her face. I’ll wear her face tonight instead of mine.�
Espantosamente, esta é uma hiena bastante bem parecida (agora que adotou a cara da criada) e civilizada. Ninguém no baile dá por nada até ao derradeiro final. Infelizmente para a debutante, como que quebrando o feitiço, a mãe irrompe casa adentro a meio da noite para a chocante revelação:
“We’d just sat down at the table,� she said, “when that thing sitting in your place got up and shouted, ‘So I smell a bit strong, what? Well, I don’t eat cakes!� Whereupon it tore off its face and ate it. And with one great bound, it disappeared through the window.�
Numa evidente renúncia das convenções sociais, a debutante rebela-se (daí a forma da hiena - animal que sempre acompanha Leonora Carrington espiritualmente). Nessa duplicidade poder-se-á ler, claro, uma metamorfose espiritual, ou uma metamorfose física, até. Mas, com Carrington, nunca nada é o que parece. A ser assim, uma hiena talvez represente uma necessidade mais visceral de autocontrolo ou uma necessidade física de violência para conseguir independência. Ou talvez a hiena que nos parece metafórica seja só uma hiena que vai a um baile usando o rosto da sua presa... Quem sou eu para julgar?
THE OVAL LADY ⭐⭐⭐⭐ É também de rebelião que trata o conto The oval lady no qual uma jovem burguesa (que mais tarde se transforma num cavalo) se encontra em greve de fome contra a tirania de um pai sem imaginação:
“I don’t drink, I don’t eat. It’s a protest against my father, the bastard.�
Habitando num mundo onde seres animados e inanimados se confundem, onde as formas são aquelas próprias dos sonhos - e do feminino, sem ângulos retos - uma jovem recusa crescer mesmo que para isso tenha de enfrentar o poder patriarcal. Mais autobiográfico do que isto, só inventado.
THE ROYAL SUMMONS ⭐⭐⭐⭐� Uma loucura dessas - a luta contra o poder instituído - é também o mote para The royal summons, um divertido conto sobre um sorteio para destituir (e, consequentemente, matar) a rainha louca de uma terra onde os ciprestes exercem a ordem. Decidir isto ao ritmo de um jogo de damas não é nada demais...
The queen called me to her office. She was watering the flowers woven in the carpet.
A MAN IN LOVE ⭐⭐� Assassinatos à parte, também aqui há histórias de amor. Mais concretamente, a história de amor de um simples merceeiro. Que nessa história de amor haja uma mulher morta cujo calor corporal ainda consegue chocar os ovos do galinheiro, é mero pormenor:
Walking down a narrow street one evening, I stole a melon. The fruit seller, who was lurking behind his fruit, caught me by the arm. “Miss, I’ve been waiting for a chance like this for forty years. For forty years I’ve hidden behind this pile of oranges in the hope that somebody might pinch some fruit. And the reason for that is this: I want to talk, I want to tell my story. If you don’t listen, I’ll hand you over to the police.�
UNCLE SAM CARRINGTON ⭐⭐⭐⭐ E já que falamos em ovos, isso leva-nos até ao tio Sam (prometo que já lá chego, ao tio e aos ovos - mais ou menos) e a duas míticas senhoras a quem a jovem protagonista de Uncle Sam Carrington recorre para terminar com o fastio de sua mãe (a quem a pancada do tio Sam - que tem a mania de rir à gargalhada em noites de lua cheia - já começa a incomodar). Bem ao estilo de Alice no País das Maravilhas, numa história onde duas couves se envolvem num confronto físico (a chamada couve a murro - os ovos não entram nesta história, mas vá, estão no grupo dos acompanhamentos), as duas simpáticas velhotas que resolvem problemas familiares, fustigam vegetais até à rendição. O objetivo: sacrificarem-se pela felicidade das pessoas. Faz perfeito sentido.
“Young lady,� she said, offering me a Louis Quinze chair, “does your family descend from our dear departed Duke of Wellington? Or from Sir Walter Scott, that noble aristocrat of pure literature?� I felt a bit embarrassed. There were no aristocrats in my family. She saw my hesitation and said with the most charming smile, “My dear child, you must realize that here we deal only with the affairs of the oldest and most noble families of England.�(...) I continued, confused, “there is a table on which, we are told, a duchess forgot her lorgnette in 1700.� “In that case,� one of the ladies said, “we can perhaps settle the matter�.
THE HOUSE OF FEAR ⭐⭐� Menos sentido fará The house of fear, conto que dá nome à coletânea, e que termina numa aura de suspense e mistério. Basta dizer que lá pelo meio há animais vestidos de clérigos (o que vale sempre a pena), uma festa exuberante num salão de pavimento turquesa com juntas a ouro, e uma personagem cujas reminiscências, do mais banal possível, nos mostram que não é preciso perceber o que está a acontecer: o importante é estar lá para participar. Ou qualquer coisa desse género.
After the meal I smoked a cigarette and mused on the luxury it would be to go out, instead of talking to myself and boring myself to death with the same endless stories I'm forever telling myself. I am a very boring person,(...)talking to myself so much, I tend to repeat the same things all the time. But what can you expect? I'm a recluse.
No final disto tudo, a autora sai-se esplendidamente bem a pintar imagens com palavras. Precoces na criação da sua própria mitologia, estes contos são evidentes peças-chave para entender a artista que é Leonora Carrington. A mulher, essa, permanece o mistério que sempre quis ser....more
Elas dizem que apreendem na totalidade os seus corpos. Dizem que não privilegiam uma determinada parte sob o pretexto de ter sido outrora alvo de proiElas dizem que apreendem na totalidade os seus corpos. Dizem que não privilegiam uma determinada parte sob o pretexto de ter sido outrora alvo de proibição. Dizem que não querem ser prisioneiras da sua própria ideologia. Dizem que não reuniram nem desenvolveram os símbolos que nos primeiros tempos lhes foram necessários para tornar evidente a sua força. Por exemplo não comparam as vulvas ao Sol à Lua às estrelas. Não dizem que as vulvas são como sóis negros na noite brilhante.
Obra pioneira na luta contra os modelos patriarcais, As Guerrilheiras foi das leituras mais herméticas que já fiz. Normalmente celebrada como marco da literatura LGBT, creio encontrar-lhe muitos paralelos com a tentativa (gorada) de Lessing aquando da escrita de A Fenda, obra que também replica a construção de uma sociedade matriarcal cujos alicerces são postos em causa pela interferência masculina. Todavia, opto por não ler esta obra do ponto de vista daquela que pode ser a preferência sexual das suas intervenientes - que me parece aqui redundante -, mas antes do ponto de vista das estruturas de poder, em cujo caso um posicionamento feminista se torna muito mais abrangente e relevante.
Elas dizem que, sendo portadoras de vulvas, conhecem aquilo que as caracteriza. Conhecem o monte-de-vénus o púbis o clitóris os corpos e os bulbos da vagina. Dizem que se orgulham merecidamente daquilo que foi durante muito tempo considerado o emblema da fecundidade e da força reprodutora da natureza.
Fazendo uso da circularidade - que também se emprega ao nível simbólico (neste caso o "O" como símbolo vulvar e feminino), As guerrilheiras é um livro que se constrói, desconstrói e reconstrói replicando, por exemplo, a ciclicidade dos modelos de organização social, invectivando à criação de uma nova ordem social (que aqui será matriarcal e feminina). Povoado da sua própria mitologia - que Wittig compila através da justaposição de referências transculturais -, e retomando temas que nos são familiares, a autora propõe uma outra leitura sobre as narrativas de origem, narrativas de formação ou mesmo narrativas escatológicas. À luz dos feminários, que aqui agem como modelos de interpretação, as obras que sustentam a cultura patriarcal são desmontadas :
Elas dizem que os feminários privilegiam os símbolos do círculo, da circunferência, do anel, do O, do zero, da esfera. Dizem que esta série de símbolos lhes forneceu um fio condutor para ler um conjunto de lendas que encontraram na biblioteca e às quais chamaram o ciclo do graal. Trata-se das demandas para encontrar o graal efectuadas por umas quantas personagens. Elas dizem que não há dúvidas quanto ao simbolismo da távola redonda que presidiu às suas reuniões. Dizem que, na época em que os textos foram redigidos, as demandas do graal constituíram tentativas singulares únicas para descrever o zero o círculo o anel a taça esférica que contém o sangue. Dizem que, a julgar pelo que sabem da história que se seguiu, as demandas do graal não tiveram êxito, que se ficaram pelos relatos.
Numa sociedade culturalmente rica (em saberes tradicionais, folclore, transmissão de conhecimento, estruturas de produção etc), Elas, o coletivo que habita estas páginas - e que vai sendo nomeado página sim, página não -
Calipso Judite Ana Isolda Krista Roberta Vlasta Cleonice Renée Maria Beatriz Reine Idomeneu Guilhermina Armida Zenóbia Lessia
- vivem uma vida relativamente pacata naquele que pode ser entendido ora como um cenário distópico (se escolhermos ignorar as pistas flagrantes sobre uma natureza luxuriante), ora, mais corretamente, como um cenário utópico ecofeminista - isto é, até à interferência bélica masculina. O que nos leva à época em que esta obra veio a lume: 1969, ano da derrota de Charles de Gaulle, cerca de um ano após a Crise, a Revolta, a Revolução de Maio de 68 que marca o fim de um sistema arcaico e conservador em prol de uma maior abertura de mentalidade geral, de uma aposta na ciência e no humanismo. Consequência desta concertação quase acidental, as mulheres (já o disse antes aqui) gozam finalmente de um espaço onde se podem devidamente emancipar. Feminismo, ecologia e sustentabilidade começam a ser palavras de ordem. E Wittig é uma das suas porta-voz. Estamos, portanto, num cenário ecofeminista, filho dos anos 70. E se este é utópico, isso exige rutura. E a rutura dá-se em As guerrilheiras de duas formas:
1. pela rutura física Elas dizem que aprenderam a confiar nas suas próprias forças. Dizem que sabem aquilo que significam em conjunto. Dizem: que aquelas que reivindicam uma linguagem nova comecem por aprender a violência. Dizem: que aquelas que querem transformar o mundo arranjem primeiro espingardas. Dizem que recomeçam do zero. Dizem que é um mundo novo que nasce.
2. pela rutura simbólica Elas dizem que no ponto em que estão devem examinar o princípio que as guiou. Dizem que não têm de ir buscar a sua força aos símbolos. Dizem que aquilo que são já não pode ser comprometido. Dizem que por isso é necessário parar de exaltar as vulvas. Dizem que devem romper o último laço que as prende a uma cultura morta. Dizem que todo o símbolo que exalte o corpo fragmentado é temporário, que deve desaparecer. Outrora foi assim. Elas, corpos inteiros primordiais principais, marcham em conjunto rumo a um mundo novo.
Esta última, sobretudo, preocupa a autora (e é importante ter em conta que Wittig segue um feminismo materialista ou feminismo marxista sob esteróides, daí a sua aposta na desconstrução social/cultural) e deixa antever, desde há cinquenta anos, a corrente preocupação com a/s linguagem/ns e, sobretudo, com a cadeia de poder que estas representam. Estruturalmente desafiante, As guerrilheiras é um texto que lida acima de tudo com a desconstrução da linguagem normativa como forma de superação do modelo patriarcal:
Elas dizem: eles mantiveram-te afastada, sustentaram-te, elevaram-te, reduzida a uma diferença essencial. Dizem: eles tanto te adoraram qual uma deusa, como te queimaram nas suas fogueiras, ou então relegaram-te ao seu serviço nos seus quintais. Dizem: enquanto faziam isto, arrastavam-te sempre pela lama nos seus discursos. Dizem: nos seus discursos eles possuíram-te violaram-te prenderam-te submeteram-te humilharam-te até à saciedade.
Por essa voz que denuncia, Wittig não escapa ao militantismo, mas o seu é um militantismo de sororidade, cumplicidade e união que faz todo o sentido:
(...)minhas amigas, não vos deixeis enganar pela vossa imaginação. Costumais comparar-vos aos frutos do castanheiro aos cravos-da-índia às tangerinas às laranjas verdes, mas sois apenas frutos da aparência. Tal como as folhas ao mínimo sopro sois levadas, por mais belas que sejais, mais fortes, mais ligeiras, com um entendimento mais subtil mais rápido. Receai a dispersão. Permanecei juntas como os caracteres de um livro. Não abandoneis o grupo.
E essa é a nota constante neste quasi manifesto, repetida e repetida e repetida como um mantra, assumidamente mística, memorial, histórica, lembrando que é da união que vem a força:
Elas falam juntas do perigo que representaram para o poder, contam como as queimaram em fogueiras para impedir que se reunissem de futuro. Elas conseguiram dominar tempestades, afundar frotas, derrotar exércitos. Foram senhoras dos venenos dos ventos das vontades. Puderam exercer à vontade o seu poder e transformar toda a espécie de pessoas em meros animais, gansos porcos pássaros tartarugas. Dominaram a vida e a morte. O seu poder conjugado ameaçou as hierarquias os sistemas de governo as autoridades. A sua sabedoria soube rivalizar com a sabedoria oficial à qual não tiveram acesso, desafiou-a, surpreendeu-a, ameaçou-a, fê-la parecer ineficaz.
Para um livro relativamente pequeno - sobretudo se tivermos em atenção que se compõe de fragmentos - a leitura de As guerrilheiras é um desafio imenso. A sua vertente filosófica materialista utópica desagua num incitamento revolucionário literal a que nem todos os leitores estão abertos. Numa categoria literária é uma épica (como aquelas homéricas que ainda hoje representam o nosso embasamento cultural) e um livro profundamente disruptivo.
Elas dizem: maldito seja, foi pela astúcia que ele te expulsou do paraíso na Terra, rastejando insinuou-se junto de ti, roubou-te a paixão de conhecer acerca da qual está escrito que tem as asas da águia os olhos da coruja os pés do dragão. Enganou-te para te transformar em escrava, tu que foste grande forte valente. Roubou-te a tua sabedoria, fechou a tua memória àquilo que tinhas sido, fez de ti aquela que não existe aquela que não fala aquela que não possui aquela que não escreve, fez de ti uma criatura vil e decaída, amordaçou-te intrujou-te atraiçoou-te. Recorrendo a estratagemas, fechou o teu entendimento, teceu à tua volta um longo texto de derrotas que determinou como necessárias ao teu bem-estar, à tua natureza. Inventou a tua história. Mas está a chegar a altura de esmagares essa serpente com o teu pé, está a chegar a altura de poderes gritar, erguida, cheia de ardor e de coragem: o paraíso existe à sombra das espadas.
São todas mulheres, as personagens que percorrem as páginas deste Livro. Mulheres excecionais que, nas mais diferentes áreas, da ciência, à literaturaSão todas mulheres, as personagens que percorrem as páginas deste Livro. Mulheres excecionais que, nas mais diferentes áreas, da ciência, à literatura, da política à filosofia, nunca deixaram de lutar pelos seus ideais, de defender as suas ideias, ultrapassando com perseverança os mais variados obstáculos, rompendo com o conceito de normalidade, desprendendo-se das amarras que tentavam silenciar a sua voz e calar a sua liberdade, não se deixando influenciar pela crítica ou pelo preconceito das suas épocas. Mais, nunca esquecendo, muito pelo contrário, orgulhando-se da sua condição de mulheres e preocupando-se com a situação das outras mulheres. [Da introdução, As minhas mulheres]
Aquilo que me leva a pegar neste tipo de coletâneas (pouco extensas e relativamente superficiais) é sobretudo observar o seu caráter subjetivo, quais as histórias de vida escolhidas pelas autoras, e o quê de cada biografia estas escolhem salientar. Daí que, ao dar com este livrinho, tenha ficado curiosa. Afinal, Maria de Belém Roseira, pense-se o que se pensar do seu posicionamento político, foi duas vezes ministra (tendo integrado o primeiro Governo Provisório de Maria de Lurdes Pintassilgo) e uma das pouquíssimas mulheres a apresentar uma candidatura para a Presidência da República em Portugal - com tudo aquilo que isso acarreta. De certa forma também pioneira, é, ainda assim, uma mulher acerca de cujos ideais nunca me questionei verdadeiramente. Talvez por isso as escolhas reunidas neste livro me tenham surpreendido - pela positiva. Entre as mais badaladas, Virginia Woolf, Frida Khalo, Marie Curie ou Maria de Lurdes Pintassilgo (a quem a autora devia esta gentileza), mulheres muito obviamente exemplares pela sua tomada de posição avant la lettre, Maria de Belém Roseira elege um outro leque de mulheres pouco ou muito pouco referenciadas: desde a irreverente Isadora Duncan, mãe da dança contemporânea, a Hannah Arendt que ousou, depois de uma vida a debater ética e responsabilidade, defender a execução de Adolph Eichmann; desde a fundadora radical do Partido Comunista Espanhol, Dolores Ibárruri, que celebrizou a expressão Eles não passarão!, a Benazir Bhutto, duas vezes primeira-ministra do Paquistão, a pessoa mais jovem a chefiar um Governo em todo o Mundo e a primeira mulher a chefiar o Governo de um Estado de maioria muçulmana, na era moderna. Apesar de introdutórias e redigidas num estilo singelo e despretensioso - a aparente generalidade das biografias revela curiosidades e apontamentos muito interessantes, mesmo para quem já conheça estas mulheres com algum detalhe. Apontamentos esses que revelam a hipocrisia que grassa nos meios em que estas mulheres se movimentam...
Marie Curie não foi nomeada para o seu primeiro Nobel [1903]. A Academia das Ciências nomeou Becquerel e Pierre, mas não a protagonista desta história. Estranhamente, o professor Lippmann, mestre de Marie e conhecedor do seu trabalho, esteve envolvido nesta nomeação. Pensa-se que Becquerel terá também influenciado esta tomada de posição. Um membro da comissão de nomeação, o matemático meco Magnus Goesta Mittag-Leffler, defensor das mulheres cientistas, escreveu a Pierre avisando-o da situação. Em resposta, Pierre tornou claro que um prémio pela pesquisa da radioatividade que não reconhecesse o papel fundamental de Marie seria inaceitável. E Marie acaba por ser nomeada. Na Suécia na cerimónia de entrega do prémio, Pierre foi sempre apelidado de professor Curie, ao passo que Marie, apesar do seu percurso académico, do seu trabalho de anos, foi sempre tratada por Madame Curie.
...que revelam traços particulares do génio das biografadas...
Aos 10 anos a mãe leva-a uma igreja para ser exorcizada, graças às suas discussões teológicas que levavam a mãe ao desespero. [Ibárruri] Recorda: «Por vezes, os meus irmãos e eu iniciávamos um diálogo esclarecedor com a minha mãe. Um de nós perguntava: - É verdade que somos todos filhos de Deus? - É verdade. - Somos todos irmãos? - Sim, todos! - Então se somos irmãos de tal e tal, referindo os abastados da terra, porque é que o pai tem de ir trabalhar todos os dias, mesmo quando chove, e os outros não trabalham e estão melhor do que nós?
...que trazem detalhes impressionantes daquilo que são as condicionantes a que estas mulheres se expõem quando reclamam o lugar que lhes pertence:
[Aquando da legalização do aborto - Lei Veil] Na altura, debatia-se no Parlamento a proibição da experimentação animal para fins comerciais e houve, também, quem comparasse o genocídio dos animais ao genocídio dos bebés e ao genocídio de Auschwitz. À época, recebia cartas a criticá-la e a ameaçá-la, condenavam os seus filhos ao inferno, via suásticas pintadas nas paredes junto a sua casa, era insultada nas ruas. (...) O pior comentário, segundo Veil, foi o do deputado Jean-Marie Daillet, que lhe perguntou se concordaria em lançar embriões para fornos crematórios.
Gostei também de ouvir a voz solidária de Maria de Belém Roseira ecoar aquilo que muitas das protagonistas destas biografias vinham a defender desde o século passado: o reconhecimento das diferenças endógenas entre homem e mulher. As mesmas diferenças que, em lugar de nos enfraquecer, apenas nos fortalecem:
[Falando de Maria de Lurdes Pintassilgo] Acredito que só uma mulher, naquela situação, aceitaria um cargo de transição, que sabia efémero. Desempenhou-o com a convicção e o empenho que não advém da sede de poder, da dependência de um título ou do protagonismo, mas sim do desejo de servir o outro. De intervir na sociedade. Julgo que isso é o que muitas vezes distingue, no mundo da política, um homem de uma mulher. A mulher está lá, porque deseja ter um papel interventivo e transformador na sociedade. E por isso não se importa de ocupar lugares transitórios ou longe das luzes dos holofotes.
Num total de doze biografias, a autora elege doze mulheres sui generis, doze mulheres que viveram a sua vida sem admitir condicionantes sociais, doze mulheres que têm tanto em comum quanto de diferente. Marie Curie, Isadora Duncan, Carolina Beatriz Ângelo, Virginia Woolf, Eleanor Roosevelt, Dolores Ibárruri, Hannah Arendt, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Simone Veil, Maria de Lurdes Pintassilgo, Benazir Bhutto. Doze mulheres de diferentes geografias e meios, que gozaram de diferentes privilégios, sofreram diferentes reveses e escolheram trilhar doze percursos únicos. Em comum, apenas uma coisa com que começar: audácia....more
DNF 70/296 A limpeza de primavera continua e ler sobre a relação sexual que Lisa Halliday manteve com Philip Roth (e eu só descobri isto depois de desisDNF 70/296 A limpeza de primavera continua e ler sobre a relação sexual que Lisa Halliday manteve com Philip Roth (e eu só descobri isto depois de desistir da leitura!) estava a revelar-se uma experiência demasiado alérgica para mim. Eu, que me quero crer de mentalidade livre sobre aquilo a que cada um chama amor, já estava a implicar com tanto bypass, operação cervical, cirurgia aos olhos e paternalismo numa relação não assumida entre uma jovem aspirante a escritora, demasiado ingénua para a idade que tem, e um escritor demasiado experiente a aliciar mulheres incautas para relações de poder desequilibradas. Fico pelas 70 páginas....more
Não esqueçamos nunca que bastará uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam postos em causa. Estes direitos nuNão esqueçamos nunca que bastará uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam postos em causa. Estes direitos nunca estão adquiridos. Teremos de permanecer vigilantes durante toda a nossa vida. Simone de Beauvoir
Em 2024, a França torna-se o primeiro país a consagrar o direito à interrupção voluntária da gravidez na sua Constituição da República. Na origem desta decisão histórica, que responde à flagrante perda de direitos fundamentais nas democracias ocidentais, encontra-se a Lei Veil (que assume o nome da uma sua grande defensora, a então Ministra da Saúde francesa, Simone Veil), a qual data de 1975 e descriminaliza o aborto. Bobigny, por sua vez, é o caso que dará força a esta revindicação, permitindo a alteração da lei - e, ligado a ele, não se poderia deixar de falar do Manifesto das 343, publicado no Le Nouvel Observateur, a 12 de outubro de 1971; de Simone de Beauvoir e de Djamila Boupacha cuja prisão, tortura e violação às mãos do exército francês aquando do conflito pela independência da Argélia, já tinha chamado a atenção da própria Beauvoir e de Gisèle Halimi, a advogada que virá a defender Marie-Claire, então com 15 anos, julgada por aborto, completando assim o círculo que liga todo um conjunto de mulheres temerárias e corajosas. Mas a história que nos leva a Bobigny ainda não tem início aqui. Recuando uns anos, chegamos ao grandioso Maio de '68, aquele que é, talvez, o maior rastilho de liberdade para as mulheres contemporâneas ocidentais, comparável ao que a Revolução Francesa foi para a democratização da Europa, em 1789. Aqui tem início a história (não narrada, mas implícita) de Bobigny 1972. Dois anos antes do julgamento, em 1970, é criado o Movimento de Libertação das Mulheres (ou Mouvement de libération des femmes, também MLF). Entre várias dissidências e a adesão de inúmeras mulheres associadas à cultura livresca e cinematográfica, 343 delas, muitas das quais activistas do Movimento, assinam o referido Manifesto que se encontra no cerne desta BD e que dará, ao caso de Marie-Claire, a devida credibilidade.
"Um milhão de mulheres abortam cada ano em França. Fazem-no em condições perigosas por causa da clandestinidade a que estão condenadas, quando esta operação, praticada sob controlo médico, é das mais simples. Silenciam-se esses milhões de mulheres. Eu declaro que sou uma delas. Declaro ter abortado. Tal como reclamamos o livre acesso aos meios contraceptivos, reclamamos também o aborto livre." Manifesto das 343
Julgada por abortar, quando tem apenas 15 anos, Marie-Claire (desde então uma fortíssima ativista pelo direito ao aborto), é denunciada pelo próprio agressor, que, não contente com a violação e as ameaças a que vota a sua vítima, tem a ousadia de revelar às autoridades o aborto a que esta perigosamente se submete. Perante um caso peculiar, em que as acusadas são uma menor e a sua (magnífica) mãe, todo um grupo de mulheres próximas e distantes, anónimas e famosas, se une para procurar, de uma vez por todas, fazer justiça.
A opressão das mulheres é um dos ativos de que a sociedade dispõe.
Manobrando o caso com particular inteligência, Gisèle Halimi (que já defendera Djamila Boupacha), abre espaço para o diálogo e o debate sobre a condição feminina a par da acusação contra os poderes instituídos. Ao fazê-lo, transforma um julgamento aparentemente linear, num julgamento político para o qual chama inúmeras personalidades de peso da cultura francesa. E o que vem depois, é toda uma sociedade a criar História.
Não é o aborto que mata, é a ausência de lei.
Gisèle Halimi (Esq.) e Delphine Seyrig, durante o julgamento (fonte: france24)
Simone de Beauvoir, Bobigny 1972 (fonte: Time)
Mas este caso não tem repercussões isoladas. Nada tem. Fruto também deste conquistar de liberdades, logo após a Revolução de Abril, em Portugal, o também Movimento Libertação das Mulheres (MLM), fortemente influenciado pelo seu homónimo, defende a legalização do aborto (em 1979, este Movimento integrará, a CNAC, Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção, movimento que dará origem à despenalização de 1984 - em casos muito particulares de ameaça à saúde e corpo da mulher e do feto, ou em casos de violação comprovada). Será, todavia, apenas em 2007 que se dará a despenalização da interrupção da gravidez, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas de gestação.
Manifesto M.C.A.L.G. (Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito), onde se lê: Praticam-se em Portugal cerca de 150.000 abortos clandestinos por ano, em condições sub-humanas que têm como consequência imediata não só a morte como a mutilação de milhares de mulheres. Antes do 25 de Abril esta verdade era escandalosamente escondida a coberto de uma ideologia baseada na repressão direta e imediata de todos os direitos democráticos. Hoje, continua-se a fugir da resolução deste problema retirando-lhe todo o conteúdo social uma vez que se pretende fazer acreditar que se trata de um assunto privado a ser resolvido na «intimidade do lar». Nenhuma das instâncias oficiais mencionou até à data a questão do aborto, que tem estado ausente de todas as resoluções governamentais. Isto acontece porque os problemas que mais diretamente afetam as mulheres (53% da população) são ainda considerados secundários." Créditos imagem: Casa Comum, Fundação Mário Soares
Enquanto isto, em 2022, o Supremo Tribunal dos EUA revogou a proteção constitucional do direito ao aborto, uma vindicação histórica datada de 1973, naquele que ficou conhecido como o caso Roe vs Wade, dando origem a que, 14 dos 50 Estados norte-americanos, proíbam explicitamente o aborto, com uma vasta expressão de outros Estados a impor restrições severas a um direito exclusivamente feminino. Um ano antes, também a Polónia, na esclarecida Europa, recuou no reconhecimento deste direito, resultando em diversas mortes fortemente mediatizadas. Fora isto, entre muitos países que nem sequer põem a questão discutir este "não assunto", também a Nicarágua e El Salvador são terminantes na sua criminalização. Por tudo isto, Bobigny 1972 (uma obra profundamente respeitosa, inteligente e elegante, a merecer uma análise artística de peso ao seu conteúdo) leva, sem margem para dúvidas, a palma de BD mais importante lançada nos últimos anos em território europeu.
Alguns esforços no sentido de manter a igualdade e a justiça, sempre:
(Center for Reproductive Rights, EUA)
(Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres)